Tragam o Paco, agora!

Dizem que se cortarmos nossos dedões dos pés perderíamos o equilíbrio e não conseguiríamos ficar de pé. Tarso sabia disso agora após ter proferido as últimas ordens a seu segurança. As palavras ainda ecoavam em sua cabeça: “tragam o Paco, agora!”.
Eram seis da manhã quando chegou a Seul; a capital coreana era exatamente ao contrário do que imaginava. A organização era de se esperar, mas o transito vazio, a baixa poluição sonora e, principalmente, o clima agradável e quente que encontrou na cidade do hemisfério norte era uma benção; muito diferente do inverno rigoroso que deixara em Porto Alegre.
Chegou ao hotel cinco estrelas bancado publicamente. Tratou de se reconfortar num sofá cor rubra que parecia engolir seu corpo por inteiro. Com as luzes apagadas, ligou o abajur a seu lado numa mesa de canto. Estranhou a luz verde que mal clareava o chão ao seu envolto, mas o cansaço reprimiu sua reação. Estava pensando em sua equipe que ficara responsável por todos os preparativos para o encontro com executivos coreanos. De súbito, alguém bateu na porta do quarto quase que ao mesmo tempo em que o chamava: “governador?”.
- Entre – disse ele já se levantando com a mão na gravata, se preparando para trocar de roupa.
Os dois brutamontes que irromperam pela porta pareceram não assustar Tarso, eram seu seguranças. Em poucos minutos já estava amarrando os cadarços dos tênis esportivos de novecentos reais. Estava em viagem, mas não poderia perder seu ritmo, sabia que para recuperar uma semana de sedentarismo era sacrificante.
Passou pelo saguão do hotel e viu de longe uma TV que transmitia algum programa apresentado por uma jovem mulher de traços orientais. A imagem na TV cortou para uma cena que parecia ser um protesto. Alguns trabalhadores reivindicavam algo em frente a um prédio. Tudo parecia muito familiar. Tarso ficou interessado pela notícia, teve vontade de parar para assistir, mas não tinha tempo, tinha que correr.
Num cooper vagaroso, pode perceber que a limpeza das ruas coreanas era de se admirar. Nenhum papel pelo chão; poucos carros pintavam o ar com gás carbônico; as pessoas pareciam mais felizes, mais sorridentes. Ali parecia um lugar onde não se havia discussão, nenhuma reivindicação. Mas algo parecia faltar. Apesar dos dois homenzarrões que o acompanhavam, ele se sentia só. Estava faltando Paco, seu fiel companheiro de cooper.
Mergulhado nesse pensamento, ouviu um grito:
- Cuidado senhor!
Tarso viu o ônibus; em sua mente veio um pensamento. Os ônibus coreanos parecem ser maiores que os brasileiros. Mas esse estava vindo em sua direção. Tarso viu a morte de perto, viu a vida de longe. Sem muitas reações, sentiu um impacto enorme em seu corpo. Estendido no chão, pensou estar morrendo, começou a rezar por sua alma. Porém, quando ouviu seus seguranças preguntarem: você está bem, senhor? Percebeu que tinha escapado da morte. O impacto sentido foi de ser segurança que, como um goleiro de futebol fazendo uma defesa difícil, pulou em sua direção e o empurrou com uma força brutal para fora da rota de colisão.
- Tudo bem, senhor? – perguntou mais uma vez o segurança.
Quando se levantou arrumando e limpando sua roupa, o governador se deu conta de que não podia fazer aquele exercício sem seu cachorro companheiro Paco. Seria como um cego saindo sem seu cão guia numa megalópole de trânsito conturbado. De nenhuma maneira poderia continuar sem Paco. Ficou se perguntando por que não quebrou o protocolo e o trouxe logo de uma vez.
Ao sair desse pensamento, Tarso exclamou:
- Tragam o Paco, agora!

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